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Ai, Credo!?

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AI, CREDO!?

 

Por Felipe Sabino de Araújo Neto

 

Você já estudou o Credo dos apóstolos na sua igreja? “Ai, credo!”, pode ser a reação de alguns. Pela graça de Deus, congrego numa igreja caracterizada pela pregação fiel da Escritura. E o estilo de pregação, expositiva e sequencial, tem atraído muitos visitantes. Os responsáveis por tamanho afluxo de pessoas são em grande parte os nossos jovens, entusiastas quanto à pregação bíblica e reformada. Contudo, posso imaginar o espanto de alguns quando lemos na nossa liturgia algumas perguntas e respostas do belo e instrutivo Breve catecismo de Westminster:

 

— “Ué, pensei que tinha sido convidado para visitar uma igreja na qual Palavra de Deus é a única regra de fé e prática!?”

 

Não tenho ciência se isso já aconteceu ou não. Trata-se apenas de uma conjectura. Afinal, os evangélicos dos nossos dias são totalmente avessos à ideia de credos, confissões e catecismos. Pensam que credo é coisa de católico, e que confissão é teologia engessada tentando usurpar o lugar da Palavra de Deus. Mas nem sempre foi assim. Nossos pais na fé não somente utilizaram os documentos históricos do cristianismo,¹ mas deixaram eles mesmos um rico legado às gerações posteriores. Em especial os reformadores, tão avessos e cientes dos erros e perigos da teologia romana. Milhares e milhares de adultos e crianças foram instruídos ao longo dos séculos na nossa santíssima fé (Judas 1.20) utilizando preciosidades como o Catecismo da igreja de Genebra (1545), o Catecismo de Heildelberg (1563), o Breve catecismo de Westminster (1656-1647) e tantos outros.

 

Rejeitar usar um credo, ou qualquer outro documento histórico da fé cristã, não é sinal de apego irrestrito à Palavra de Deus. Antes, é uma clara demonstração de orgulho espiritual, mesmo que inconsciente em alguns casos. Como assim?

 

Todos nós possuímos um credo,² mesmo que não saibamos. Talvez nunca pensamos acerca do assunto, muito menos sentamos para registrar num papel, mas temos inevitavelmente um credo. Todo ser humano, mesmo um ateu, possui crenças sobre Deus, Jesus Cristo, salvação, igreja e tudo o mais. O credo do ateu é “Deus não existe”, enquanto o credo do cristão é “Creio em Deus Pai, todo poderoso”.

 

Quando não temos ciência de ter um credo, assumimos posturas e atitudes perigosas para a nossa fé e nitidamente contraditórias. Por exemplo, afirmar “eu não tenho um credo” é dizer que o seu credo é não ter um credo.³ Entendeu? Explico: a rejeição de credos faz parte do seu sistema de crenças, ou seja, faz parte do seu credo. Assim, ao negar a importância de credos, você está revelando parte do seu próprio credo.

 

É exatamente a inevitabilidade de credos pessoais e privados, muitas vezes ocultos, que torna indispensável a existência e o uso de credos históricos. E aqui está o motivo de ser arrogância e orgulho espiritual rejeitar esses documentos. Tomemos como exemplo o Credo dos apóstolos, mencionado no começo deste artigo.

 

Segundo estudiosos, o Credo dos apóstolos ou Credo apostólico foi escrito entre o século IV e VI d.C.₄ Assim, como a data indica, este documento não foi escrito pelos apóstolos de Jesus Cristo.₅ Não obstante isso, o título é apropriado pois o ensino deste belo texto está de acordo com a “doutrina dos apóstolos”. A ortodoxia, beleza e utilidade deste credo foi analisada ao longo dos anos e não foi achada em falta. O documento recebeu a aprovação até mesmo do grande teólogo da Reforma, João Calvino. Em outras palavras, além de ser (provavelmente) o produto de inúmeras mentes, o documento foi examinado e endossado por miríades de outros cristãos.

 

Dessa forma, rejeitar os credos históricos do cristianismo em favor do próprio credo é dizer que eu sou mais sábio que todos os meus demais irmãos. É afirmar que sou autossuficiente, não precisando dos “pastores e doutores” (Ef 4.11) que Deus mesmo concedeu à sua igreja ao longo das eras. Ora, em Efésios 4 Paulo deixa claro o motivo pelo qual Deus deu não somente apóstolos e profetas,₆ mas também pastores e doutores.₇

 

Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. (Efésios 4.12-14)

 

Deus capacitou e capacita inúmeros homens para ensinarem a sua Palavra com o intuito de que todos os seus filhos sejam aperfeiçoados. Para que possam amadurecer e servir o corpo de Cristo. Para que não caiam nos erros dos falsos mestres.

 

Sim, o Senhor faz isso por meio dos pastores que nos dá, que pregam fielmente domingo após domingo, mas o faz também pelo legado que esses homens deixam à posteridade. E os credos são parte desse legado. Novamente, rejeitar um documento histórico, aprovado pelo tempo, é sinal não apenas de arrogância e orgulho, mas de cegueira e tolice. É achar-se suficiente para sozinho ser aperfeiçoado para o desempenho do serviço, para ser edificado e edificar aos outros, e para escapar das falsas doutrinas.

 

Assim, pergunto novamente: você já estudou o Credo dos apóstolos na sua igreja? Se não, eis os livros que podem te auxiliar neste proveitoso empreendimento:

 

- Horton, Michael. We Believe: Recovering the Essentials of the Apostles’ Creed. Nashville: Word Publishing, 1998.₈

 

- McGrath, Alister. Affirming Your Faith. Leicester: InterVarsity Press, 1991.₉

 

- Olevianus, Casper. An Exposition of the Apostles’ Creed. Translated by Lyle D. Bierma. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2008.

 

- Packer, J. I. Affirming the Apostles’ Creed. Wheaton, IL: Crossway Books, 2008.

 

- Venema, Cornelis P. What We Believe: An Exposition of the Apostles’ Creed. Grandville, MI: Reformed Fellowship Inc., 1996.

 

- Witsius, Herman. Sacred Dissertations on What Is Commonly Called the Apostles’ Creed. Translated by Donald Fraser. Escondido CA: The den Dulk Christian Foundation, 1993.

 

Que a Santíssima Trindade, belamente descrita e exaltada no Credo dos apóstolos, seja mais e mais conhecida por meio do estudo dos nossos documentos históricos. Esse é o meu desejo e a minha oração!

 

Notas:

1. Credo apostólico, Credo niceno, Credo de Calcedônia, etc.

2. A palavra credo vem do latim credo, que significa “eu creio”.

3. Mais contraditório ainda é você rejeitar ler e estudar um documento belo como o Credo dos apóstolos, mas aceitar ler um artigo pobre e mal escrito como este.

4. Ferguson e Packer afirmam que a estrutura atual do Credo apostólico surgiu apenas no século VIII. Veja Sinclair B. Ferguson and J.I. Packer, New Dictionary of Theology (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), p. 179.

5. Contudo, durante muitos séculos essa foi a crença de inúmeros cristãos.

6. Algo que cessou no primeiro século d.C.

7. Algo que Deus fez, faz e continuará fazendo até a Segunda Vinda de Cristo.

8. Publicado no Brasil pela Editora Cultura Cristã.

9. Publicado no Brasil pela Editora Vida Nova.
 

Felipe Sabino

Sobre o Autor:
O autor é Bacharel em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e mestre em Filosofia (Conceito CAPES 5) pela Universidade de Brasília (UnB). Presbiteriano por convicção, é membro da IPB desde 2002. É atualmente Presbítero da Igreja Presbiteriana Semear (Brasília-DF).



Fonte: http://monergismo.com/wp-content/uploads/ai-credo_felipe-sabino.pdf

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